O que exatamente viria a ser um mangá? Historicamente, é o quadrinho japonês que, para nós ocidentais, é lido de trás para frente, da direita para a esquerda. Mas parece que o sucesso alcançado por ele tem feito surgir “ramificações”, como o american mangá. É isso mesmo, os sempre adeptos e alucinados fãs de HQ (história em quadrinhos) americanos, se renderam ao estilo de narração e desenho do quadrinho oriental. Um deles já até se transformou em animação: As Três Espiãs Demais, que é exibido pela TV Globo repetitivamente há dois anos.

Sim, a estética inspirada pelo mangá de pessoas como Ben Dunn (autor de Warrior Nun Areala), ou como Fred Gallagher (criador do quadrinho virtual através do site www.megatokyo.com), há quem diga, com certeza, que não é mangá. Talvez não seja. O american manga tem seus próprios códigos, ainda é apenas uma variante de um estilo, cujo nome não nega sua paternidade – apenas o admite. No entanto, o fato dele não ser 100% mangá também não nega seu valor. E nasceram de uma necessidade de se trabalhar em uma estética diferente.
Toda estética tem regras narrativas. Se você as segue, então está trabalhando em uma linha específica. É um todo. O que se faz na China e na Coréia, por exemplo, também pode ser chamado de mangá por seguir sua estética, sua linha. Embora na China esteja já ganhando características próprias há bastante tempo e ganhando um outro nome - “Manhua”. Está se emancipando esteticamente do mangá, apesar de ser seu filhote direto. Acredito na importância do surgimento gradual de uma nova escola quadrinhística, mesmo que inicialmente ela seja derivativa do mangá. Falta apenas que eles, os “Manhuas”, ganhem uma identidade internacional, em uma ou duas décadas, é possível que isso aconteça.
Como podemos ver, é plenamente possível que haja mangás e HQ’s em outros países e não só no Japão e nos Estados Unidos, e se um dia houver um “estilo gibi”, fantástico! Estética tem origem. Estética não tem dono. O crescimento do mangá talvez tenha determinado que sua estética pode deixar de ser mais exclusividade japonesa a qualquer momento. Por enquanto, o American Mangá parece ser uma apropriação falha dos conceitos de outra estética, mas breve, ele deve dar bons resultados e terminar por gerar seus próprios cânones. Estão apenas nos primeiros passos, se ele conseguirem, qualquer outro país também poderá fazer o mesmo.
Em que me fundamento para fazer tais afirmações? Bom, meus fundamentos vêm da leitura de Scott McCloud, Desvendando os Quadrinhos, e suas transições quadro a quadro. Foi ali que eu entendi que é possível fazer não só mangá, como qualquer outro estilo, desde que se domine sua estrutura narrativa. O mangá é mais do que olhos grandes e linhas de movimento, podemos identificá-lo por suas transições quadro a quadro, únicas, em questões de diagramação e ritmo narrativo. Se um quadrinhísta, dominar a estrutura do estilo de quadrinho desejado, é possível fazê-los em qualquer lugar do mundo: mangá na Coréia, BD na Argentina e mesmo HQ no Brasil(os exemplos não são poucos). Ressaltando que quando falo em estilo me refiro ao tipo de traço e narração do quadrinho, e não a forma como o desenhista o conduz, porque esse estilo é algo do artista e é intransferível.
Dizer que uma história pode não ser mangá por ter sido feita fora do Japão é dizer que Holy Avenger(mangá da brasileira Érica Awano e Marcelo Cassaro) é mais parecido com Cebolinha(personagem da Turma da Mônica, de Maurício de Souza) do que com qualquer outro mangá, tal afirmação é esdrúxula. Uma coisa que as pessoas não costumam se dar conta é que as influências vêm de todo lugar. É impossível se pensar no estilo de Ryoichi Ikegami (japonês) se ele em algum momento não tivesse tido contato com a arte de Neal Adams (americano). Grandes quadrinhístas abrem sua mente para o que vem de fora e adicionam aos seus trabalhos, são autores que não estão cegos para o que se faz ao redor do mundo. Como o japonês Akira Toriyama ,autor e desenhista da saga Dragon Ball, que se inspirou no super-homem e em lendas chinesas para criar seu personagem principal, Son Goku. Inicialmente, uma produção voltada para japoneses, mas teve tal repercussão internacional que, hoje, é tão conhecida quanto a estória do super-herói que a inspirou. Talvez essa seja a diferença crucial entre um quadrinhísta de sucesso e um amador: a flexibilidade.
O Mangá ou a denominação que ele recebe representa não só uma história que é contada,mas aborda temas,estilos,concepções e conceitos baseados na capacidade creativa,que nunca é igual em seus autores.Cada uma deles influenciados por suas experiências.Cada vez que lemos um mangás somos convidados a experimentar as sensações dos seus criadoresao criarem a narrativa e muitas vezes quando estavamos revisando o texto(entenda-se uma releitura) nos remetemos a perceber algo que anterirormente passou desapercebido.
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